DIÁLOGO ENTRE DOIS GRÃOS DE AREIA

Autor: Marcos Ticiano A. Sousa

De repente, como se acordassem de sono profundo ou se livrassem do efeito de forte anestésico, dois grãos de areia, que se acham juntos em areal, às margens de movimentada rua de uma grande cidade brasileira, são acometidos de súbita tomada de consciência. O local em que se encontram, na realidade, é uma calçada aberta devido a obras, onde o trânsito de pedestres é demasiado intenso. O fato é que os grãos transmudam-se e passam a se comportar como gente em todos os seus predicados, e até se sentem com o mesmo porte, não obstante a consciência do passado e de suas limitações.
– Olá, meu nome é Ticho, tudo bem?
– E o meu é Techo. Tudo bem.
– De onde vieste e como chegaste aqui? – indaga novamente Ticho para não perder a oportunidade de iniciar uma conversa.
– Bom, antes de mais nada, quero dizer que, diante de nossa semelhança, talvez tenhamos vindo do mesmo lugar – conjectura Techo, saindo de seu silêncio, com ar surpreendentemente professoral.
– Como assim?
– Dizem alguns cientistas da física quântica e relativística que o que é matéria hoje pode ter sido energia há muito tempo atrás, e vice-versa, ou uma pode se transformar em outra imediatamente, desde que submetida a determinadas condições. Já ouviste falar na formulazinha E=mc2[1], proposta por Albert Einstein?
– Claro que Não!
– Pois bem, ela indica a correlação existente entre a matéria e a energia de um corpo, quando a primeira é submetida ao quadrado da velocidade da luz. Ou pode traduzir a proporcionalidade da energia total que um corpo pode produzir em relação a sua massa.
– Isso tudo é tenebroso para mim. Não consigo entender como posso ter provindo de ondas energéticas, tal qual um simples relâmpago – diz Ticho, descontente com o rumo da prosa.
– Calma, amigo! Não te aflijas, estou apenas tentando responder ao que perguntaste – replica, prevendo o encorajar.
– A propósito, como sabes de tudo isso?
– Ah Ticho, os recursos tecnológicos estão aí! – retruca, como se gente fosse. – Hoje, se tem condições de acessar praticamente toda carga de conhecimento da humanidade por meio de um smartphone e um acesso à internet.
– Verdade.
– Contudo, retorno ao que falávamos, limitando-me a períodos mais recentes. Deves ainda te lembrar, pois há semelhança ao que aconteceu contigo. É que eu era uma minúscula parte de um todo, de uma massa montanhosa quase sem fim. Nesta época, passava a maior parte do ano com muito frio, às vezes até mergulhado em camadas de gelo, dada a altura em que me encontrava.
– Então quer dizer que vieste de uma montanha, e até fizeste parte dela? – indaga Ticho, agora curioso.
– Sim – responde Techo, mais aliviado. – Espero que tenha satisfeito a tua primeira pergunta.
Ora, a forma, o tamanho, a composição e o ambiente onde se encontram os grãos de areia dão boa indicação de sua origem. As rochas preexistentes[2], por mais rígidas e hígidas que sejam, estão sempre sendo submetidas a diversos fatores físicos, químicos e biológicos, que são as intempéries da natureza, tais como a ação da temperatura, da pressão, da água, dos ácidos, dos organismos, provocando a erosão e fazendo soltar blocos da rocha original. A partir daí, estes blocos seguem uma maratona, que pode ser demorada e sinuosa, até seu novo ambiente, utilizando vários meios de transporte como a gravidade, o vento, o gelo, a chuva, os rios, as correntes marinhas, etc. E quanto maior e moroso for o caminho percorrido, menores, mais trabalhados e, portanto, arredondados são os grãos resultantes nos depósitos atuais.
Por outro lado, resultam em grãos arenosos os minerais e as rochas mais resistentes, e em massa argilosa os minerais e as rochas menos resistentes. Isto é, grosso modo, o que se chama de rochas sedimentares, formadas sempre a partir de rochas originais ou preexistentes, e que podem ocorrer na natureza, agregadas ou consolidadas, tais quais os conglomerados, arenitos, os siltitos, os argilitos e os folhelhos, ou desagregados, como os seixos, as areias, os siltes e as argilas.
Cabe lembrar que as rochas mencionadas são as chamadas rochas clásticas, detríticas ou mecânicas, subclasse das sedimentares, as quais podem ainda ser divididas em mais duas delas: as quimiogênicas, formadas pela precipitação de substâncias químicas em solução na água do mar, dos lagos, etc. – a exemplo de sais como calcário, halita, anidrita e gipsita –, e as biogênicas, formadas pelo depósito de materiais orgânicos – a exemplo do calcarenito fóssil.
Esse foi o resumo do que Techo acabou de transmitir ao seu novo e inusitado amigo, Ticho, em referência ao passado de ambos e à maneira como ali chegaram. Enfim, eles são dois espécimes sedimentares clásticos, ou seja, dois grãos de areia.
Apesar de perceber que o amigo não lhe dá mais a devida atenção, talvez pela aridez do tema, quer, ao mesmo tempo, continuar o elo que os fizeram iniciar a amizade, pois pode ser por força do destino, e não à toa, que os dois se encontrem temporariamente tão próximos. Techo, então, passa a puxar o palavreado para os tempos correntes, até por perceber que o colega bem interessado está em espreitar e analisar os transeuntes.
– De certa forma, estou surpreso com a tensão e rapidez com que as pessoas passam por aqui – observa Techo.
– Também estou intrigado com isso. Mas, deves concordar que há muita beleza e graciosidade na maioria das mulheres passantes, é ou não é?
– Oh se é! Será que teríamos chance de conquistar alguma delas, amigão?
– Sei não! – responde Ticho, meio envergonhado e tez já ruborizada. – Mas vá em frente, te dou a maior força para tentar esta parada. Quem sabe me encorajaria!
– Oh cara! Esqueceu que somos grãos de areia? – ri o parceiro.
– É verdade, mas não custa sonhar. A crise não me vedaria os sonhos, pois, além de silenciosos, são sempre gratuitos.
– Já que falaste em crise, achas mesmo que o país está em crise? – provoca Techo.
– Acho que sim. Observe: semblante nervoso, baixa autoestima e intolerância nas pessoas; vestes surradas, quantidade de desocupados, de pedintes e de jovens na rua e nos sinais de trânsito, e consequente insegurança; crescimento dos furtos e roubos; menor número de e pior estado dos automóveis que por aqui passam; ruas esburacadas e demora em terminar esta obra na qual estamos expostos. É o que se pode enxergar ao nosso redor. Neste aspecto, sou bastante observador...
– É, noto que sim! – atalha Techo.
– Há pouco tempo, praticamente não se verificavam esses fenômenos – retoma o assunto –, as pessoas passavam rápidas, mas alegres, bem vestidas. Crianças e jovens eram levados à escola; ruas e sinais de trânsito praticamente livres de desocupados e de pedintes; muitas obras nos quatro cantos da cidade. Fera, o que aconteceu para haver tantas mudanças? Esse tipo de coisa é típico de mudança de rumo político.
– Mas quando se fala em mudança, ela geralmente ocorre para melhor, não é mesmo?
– Nem sempre, amizade! Pelo visto, não foi para melhor. Pelo menos por enquanto, a coisa está feia. Os transeuntes falam muito em possíveis salvadores da pátria para consertar o país nas próximas eleições, o que leva a crer que a origem de tudo foi mesmo o descrédito na política. Poderíamos tentar conversar com algumas pessoas, para colher melhor suas impressões acerca da situação – observa ainda Ticho.
– É, até poderíamos, mas como, se somos grãos de areia?
– Verdade, me empolguei, dada a intensidade com que adentrei na condição humana.
A história ensina que as sociedades ditas organizadas têm de manter seus cidadãos conscientizados, com senso crítico e aptos a exigir dos seus representantes a resolução dos seus constantes desafios, para que exerçam o poder sempre a serviço da coletividade. A conscientização dos indivíduos resulta da boa correspondência entre educação eficaz, politização e obtenção da informação real. Esta situação, por si, já se constitui autocontrole e fortaleza de instituições, o que tornaria bem difícil a corrupção. Se a educação ou a politização dos habitantes não acontecerem, ou ainda, se a informação for vedada, grupos corporativistas, não democráticos ou pseudodemocráticos estarão sempre à espreita e prontos a ocupar o vácuo deixado pela justa política coletiva, fazendo uso de mecanismos os mais variados para tal fim. São os falsos salvadores da pátria, ou até mesmo os representantes das oligarquias, a entrarem em ação, em detrimento da progressão social e dos direitos fundamentais dos indivíduos daquela sociedade. Isto ocorre independentemente do modo de produção econômico escolhido, seja ele capitalista, socialista, etc., é dizer, consiste num problema eminentemente político.
É bem verdade que o melhor regime político para que se atinja um nível ideal de organização de uma sociedade é, sem sombra de dúvida, o democrático. Quando a democracia é conduzida de forma sadia, as teses e antíteses sociais são constantemente confrontadas entre si com a finalidade de levar o país à progressão social e ao fortalecimento de suas instituições. É trabalhoso, árduo e vagaroso o caminho, mas vale a pena. Nesta linha, o inglês Winston Churchill chegou até a externar a ideia de que a democracia é o pior regime político, com exceção de todos os outros.
Com efeito, uma nação jamais resolverá seus problemas efetivamente, afastando seu povo da política. Pelo contrário, esta ideia favoreceria os propósitos de grupos minoritários internos em conjunto, ou não, com outras sociedades interessadas em manter objetivos exploradores, utilizando-se da alienação política dos habitantes do país submisso.
– Espere aí Ticho, agora és tu que estás exagerando. Estou meio confuso. Acabaste de explicar que a democracia resolveria o problema!?
– Resolve sim, desde que conduzida de forma sadia e que o espírito público seja prevalente sobre qualquer interesse particular. Ademais, devem ser conciliadas a educação, a informação e a conscientização política dos cidadãos.
– Olha Ticho, conversamos tanto, e agora estão vindo alguns trabalhadores que, suspeito, vão dar continuidade a esta obra!
– Será que vão nos aterrar novamente?
– Ah não, babou! Que droga!
Nesse instante, o lamento de Ticho e Techo resulta da intenção de permanecerem como gente e, daí, poderem dar outros saltos em direção à razão, ao inteligível, para muito além do simples sensível. Contudo, não logram êxito, e, de maneira semelhante ao que previu Platão em seu "Mito da Caverna", passagem do Livro VII de "A República”, os grãos voltam forçadamente à escuridão, e se separam, como se nunca houvessem se encontrado, a continuarem suas trajetórias perpétuas de lenta transformação...
E oxalá a progressão social do país não tenha o mesmo ritmo geológico da metamorfose dos grãos de areia.


[1] E = energia,
m = massa,
c = a velocidade da luz no vácuo, que é de aproximadamente 300.000.000 m/s.
[2] As rochas preexistentes ou originais aqui colocadas são as rochas ígneas e metamórficas. As primeiras são formadas pelo resfriamento lento da massa pastosa, magma, do interior da Terra, dando origem a rochas intrusivas com cristais bem desenvolvidos; ou pelo resfriamento rápido do magma, nos fenômenos vulcânicos, dando origem a rochas extrusivas, vítreas, sem cristais definidos. Já as rochas metamórficas são as rochas oriundas da transformação de outras rochas, sejam elas ígneas, sedimentares ou até mesmo metamórficas, que, quando submetidas a grandes profundidades, sofrem a ação de fenômenos físicos, como temperatura e pressão, e químicos, tais as reações químicas, dando origem a novos compostos minerais ou rochosos.


Para citar este texto: SOUSA, M. T. A. de. Diálogo entre dois grãos de areia. MTiciano Sousa, Natal, jun. 2017. Disponível em: <http://mticianosousa.blogspot.com.br/2017/06/dialogo-entre-dois-graos-de-areia.html>. Acesso em: xx.xx.xxxx.

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